Entrevista, Niteroiensis

Niteroiensis: entrevistamos a banda Facção Caipira

Facção Caipira lança seu novo clipe e conta tudo pra gente

Na última terça (17) a banda niteroiense Facção Caipira lançou o seu segundo clipe “Ex-fumante” que faz parte do CD “Homem Bom” lançado em 2015. Nós do Explore Niterói tivemos o privilégio de uma entrevista exclusiva com os caras. Três dos músicos que compõe a banda conversaram com a gente: Jan Santoro (vocal e resonator), Vinícius Câmara (baixo) e Renan Carriço (bateria). Infelizmente Daniel Leon (gaita) não esteve presente, mas a conversa rendeu muitas informações inéditas da banda, além de muitas risadas, é claro.

Marquei a entrevista na casa nova (que também será o estúdio) dos Caipiras. Ela fica aqui em Niterói mesmo, em Piratininga. Cheguei lá e foi incrível ver a simplicidade e humildade – que eu já tinha visto nos palcos – sendo confirmada no jeito de agir de cada um deles. O bate-papo aconteceu na varanda deles onde havia uma cabeça de búfalo irada (que a banda utiliza em vários shows) vinda de uma fazenda criadora de búfalos vizinha à do Jan Santoro em Silva Jardim. Então vamos à entrevista!

Explore Niterói: A Facção Caipira é muito original, com muitas referências, mas com um estilo muito próprio. Vocês desde o início pensaram nesse som que mistura rock, blues, country, brega e tanta coisa boa? Como chegaram na identidade da banda?

Jan Santoro: Veio naturalmente, acho que a gente nunca chegou a se preocupar de ser uma banda só de blues ou tocar mais aquilo, mais isso. No final das contas a gente traçou uma carreira que tocamos um pouco de tudo né? Fizemos versão do Vinícius de Moraes, Jair Rodrigues, agora da Legião Urbana, Faroeste Caboclo, que já ficou totalmente diferente do que a gente já fez. Então são referências bem abertas, a gente vai se adaptando ao que estivermos ouvindo. Cada um trás um pouco disso pro estúdio. Hoje eu estou mais ligado em música brasileira, então, pode ser que venha outra coisa nos próximos meses, não dá pra saber tanto assim. A gente só vai saber quando o estúdio estiver pronto e a gente começar a tocar… (risos)

Explore: Vocês acham que isso é o que tem de tão de original na Facção Caipira, essa mutabilidade de vocês?

Renan Carriço: Talvez seja sim. Antes de tudo a gente se respeita muito. Então, a gente não se fecha para a ideia do outro. Se um trás uma parada meio brega, como já veio, a gente não fica ‘ah, não vou tocar isso’. A gente faz, começa a tocar e se todo mundo estiver gostando a gente bota pra frente. Como já tiveram várias músicas que a gente começou a fazer e depois de um tempo a gente já não estava mais tão amarradão de tocar e foi ficando, sabe?

Vinícius Câmara: Isso de fazermos tudo junto também acaba dando a cara de todo mundo pra a música, ajuda também a construir a música sempre. Todo mundo dando opinião e só aprova se todo mundo estiver gostando.

Explore: De onde vem a inspiração do campo e esse estilo menos urbano? Já que vocês são de Niterói que é uma cidade predominantemente urbana, mas também tem aspectos rurais, como aqui onde estamos, por exemplo. Como vocês dialogam com a cidade?

Renan Carriço: De uns tempos pra cá eu já estou com vontade de morar mais afastado do urbano, mas Niterói é uma cidade muito boa de viver, só não sei como isso influencia na música.

Jan Santoro: Se for pegar, é no sentido ingênuo mesmo da natureza, da espiritualidade, da paz de espírito de estar num lugar mais tranquilo. Ou então, estar dentro de si mesmo para fazer uma música. Acho que vem daí, da pureza da ideia. Até porque grande parte da minha vida eu vivi nessa cidade.

Vinícius Câmara: todos nós né? (risos).

Explore: Vocês já tocaram em muitos festivais e ambientes de gêneros e cenas mais específicas. De que forma as bandas viram vocês nesses festivais? Já rolou do público ou de outras bandas terem preconceito?

Vinícius: Não, a gente já tocou em festival de “Jazz e Bossa”, em festival de Metal e sempre fomos muito bem recebidos em qualquer ambiente.

Renan: Teve uma vez que a gente ficou com um pouco de medo, que a gente tocou no Roça ‘n Roll depois do Krisiun, que é uma banda de Death Metal, e o público lá era pesado. A gente ficou com o ** na mão, mas no final deu tudo certo. Inclusive a gente conversou bastante com a banda depois, eram super simpáticos.

Jan: Teve uma vez também que a gente tocou em uma festa da terceira idade (muitos risos). Nesse dia teve preconceito sim! (eu perguntei: mas como é que foi isso?) Gritaram ‘toca pagode!’ (mais risos), quando eu vi, tava lá e tinha que tocar né?

Explore: Tem quanto tempo isso?

Jan: Tem uns dois, três anos. Mas rolou, a gente fez o que tinha que fazer e temos história pra contar agora. 30% se levantou, dançou, os outros ficaram olhando, tomando cerveja… (risos)

Um de nossos leitores, que também é músico em Niterói, nos mandou uma pergunta muito pertinente. Ele quis saber a opinião da banda diante da cena musical de nossa cidade. Se a Facção Caipira enxergou algum tipo de mudança nesse cenário desde quando começaram a tocar para os dias de hoje. Até por conta da influência da banda.

Renan: Acho que a cena de Niterói sempre foi boa, sempre foi uma cena forte. Mas acho que dos anos 90 pra cá o problema recorrente é não ter tido muito lugar para fazer um evento, um show. Eu acho que desde que eu to na banda até hoje eu senti uma união mais forte entre a galera da cena sim, o pessoal se reuniu mais, fez algumas ações. Acho que isso foi importante para mostrar a força de todo mundo junto. Eu não sei se a gente teve influência nessa mudança, acho que dentro do grupo pode ser que sim, mas individualmente não.

Explore: Pensando mais especificamente em 2016, vocês participaram do projeto Viva Renato 20 anos, tocaram Faroeste Caboclo, que é extremamente consagrada. Como foi a experiência de participar desse projeto tão grande?

Jan: Foi muito tranquilo, eles propuseram e falaram ‘podem ficar livre e fazer como quiserem’. A gente pegou e gravou lá na Toca do Bandido junto com a produção do Felipe Rodarte, fomos pensando em que parceiros poderíamos fazer. A música foram eles que sugeriram: ‘a gente gostaria que vocês trabalhassem com essa aqui’.

Explore: Faroeste Caboclo é uma das mais difíceis da banda né? Como foi para vocês?

Vinícius: Sim, sim, é bem difícil.

Renan: A gente não queria fazer uma coisa óbvia. Eu acho que é até o que parece um pouco, você começa a escutar os dois primeiros minutos da música e acha que vai ser aquilo ali o resto da música inteira. (risos) Mas a gente nem podia e nem queria isso de jeito nenhum, a gente queria fazer uma coisa diferente, botar a nossa cara. Botar até um pouco mais de como estávamos musicalmente no momento, que já tá bem diferente do Homem Bom (CD da banda), a gente já tá fazendo outras coisas, sabe?

Jan: Tem outra também, eu não sou um intérprete igual o Renato (Russo). A forma como ele construía a narrativa era de um contar de história. Então teve que rolar um apelo de arranjo, de outras coisas para dar uma força aí. (risos)

Camisa da Facção Caipira autografada / Foto: Mateus Pereira

Explore: Também em 2016 houve o roubo dos instrumentos de vocês e depois a volta por cima contando com a força de bandas da cidade e dos fãs aqui de Niterói, os shows, etc. De que maneira lidaram com essas coisas?

Renan: Logo depois do roubo foi uma m***a né? (risos) Ficamos meio sem saber o que fazer. Só que ver a mobilização das pessoas deu um gás enorme. Fez decidir a gente vir morar aqui também sabe? Engatar a parada de vez.

Vinícius: Com certeza, a galera veio e abraçou a gente mesmo. A vakinha, os eventos que tiveram deram muita força pra gente seguir.

Renan: Eu acho que se a gente não tivesse sido tão abraçado assim por todo mundo teria sido bem pior. Mais pela questão emocional mesmo.

Jan: Com certeza, é recorrente, acontece… Quantas pessoas às vezes passam por isso (o assalto) de forma muito mais drástica e não tem esse apoio. Então é uma coisa que é determinante sim. E, graças a Deus, no final foi tudo bem, tudo bem carinhoso. Isso dá energia e força para você continuar né? A gente está super agradecido a essas pessoas e vamos carregar isso pra música e levar isso como lição de vida e que seja de exemplo para as pessoas se amarem mais e contribuírem umas com as outras porque funciona, funciona mesmo.

Explore: No meio disso tudo vocês lançaram o clipe “Levada”, em setembro do ano passado. Em uma semana 12mil visualizações, hoje já são quase 30mil. Como estava a cabeça de vocês com a produção e repercussão desse primeiro clipe?

Renan: De certa forma acho que foi bom, porque sim a gente tinha muita coisa para fazer, mas ter o clipe para tirar um pouco o foco disso foi bom até pra gente sabe? Não ficar só com a cabeça na perda dos instrumentos. O clipe já estava gravado, então acho que não foi tão difícil assim. Se a gente tivesse que gravar depois, acho que a gente ia estar com uma carinha meio de tristinha (risos).

Jan: O negócio de lançar o clipe é porque também não dá pra ficar batendo só nessa tecla ruim. Lançar um clipe é pra quebrar esse clima e pra falar ‘o negócio continua, a gente está preparando e continua preparando coisas’. Agora a gente lançou outro clipe inclusive, tem que continuar e já já a gente vai lançar material novo.

Vinícius: Sobre a expectativa, pra mim era alta sim. A gente já estava achando o clipe muito bonito. Esperávamos alcançar muita gente mesmo.

Jan: Você vai ficando envolvido com a parada né? A gente fala com as pessoas do clipe até hoje e comemora e sai junto ainda. Acho que eu não gosto de ficar esperando muito, porque vai que a parada não da certo aí você fica triste… (risos) Mas superou a expectativa sim e ficamos bem felizes com o andar da carruagem.

Explore: Agora foi o lançamento do clipe de “Ex-fumante”. Falem um pouco da composição dessa música e o que ela significa para vocês?

Jan: A música eu fiz tem uns dois anos quando o Renan tinha parado de fumar e eu fiquei encucado né? O moleque ficou nervoso… (muitos risos) Daí eu resolvi parar de fumar também. Porque é f***a, você fica desesperado, você vê outras pessoas fumando e tudo mais. E foi uma m***a, não consegui não, fiquei uma semana mal, muito irritado e comecei a escrever o que estava acontecendo comigo ali relacionado à isso. Voltei a fumar também e fumei durante muito tempo cantando essa música… (risos)

Jan: Agora eu parei de vez e ele voltou. Mas aí veio disso, jogamos no estúdio, veio meio samba quando eu estava tocando sozinho, depois joguei pro brega, trabalhamos no estúdio e tentamos fazer de tudo com ela e voltou pro ponto inicial com essa pegada mais brega. Não sei, mas tem uma coisa interessante de música brasileira ali, algumas referências que eu to gostando hoje, é uma das músicas que eu mais gosto do CD, faz sentido pra mim e eu curto muito tocar ela.

Clipe Ex-fumante / Divulgação Clique para assistir

Explore: Sobre o clipe, como foi a construção dele, o que vocês pensaram em ressaltar pro público de vocês?

Jan: A ideia veio a partir de um clipe que eu tinha imaginado, sugeri o roteiro e teve uma galera da Zooey querendo fazer um clipe nosso, aí eles vieram com uma ideia de roteiro similar, cruzamos algumas coisas e a gente foi fazer na raça mesmo. Com vontade, com parcerias, os atores todos chegaram de prontidão, os fotógrafos também, Ronaldo (Land, diretor de Fotografia), o diretor Daniel (Vellutini), as produtoras Leticia (Paladino) e Julia (Herkenoff). A galera chegou junto e quis fazer acontecer. Foi bem maneiro e fiquei muito feliz com o resultado final.

Renan: Foi diferente da produção do nosso primeiro clipe, nem melhor nem pior, apenas diferente (nesse momento cantou o verso “apenas diferente” da banda niteroiense Kapitu e todos rimos). Profissionais diferentes, outro ambiente. “Ex-fumante” a gente teve um pouco mais de correria, porque eles cederam o espaço como um apoio (Escola de Cinema Darcy Ribeiro).

Jan: São muitos andares, cara… (risos) Não tem ar condicionado, sinistro. Foi difícil ter que carregar o bumbo lá pra cima.

Renan: Já em “Levada” foi mais tranquilo, a gente não teve que levar tanta coisa.

Jan: Nem tanto né… (mais risos) Mas a gente tem que fazer as paradas, não importa se vai dar dor nas costas, tem que se jogar no negócio. Tá afim de fazer, faz direito, foi o que a gente buscou.

Explore: Que curiosidades do clipe que vocês podem falar pros nossos leitores?

Jan: Vocês vão ficar com vontade de fumar, com certeza… (risos)

Vinícius: Estava muito calor, a gente estava suando muito. O suor e a fumaça eram reais… (mais risos)

Jan: Eu tinha acabado de parar de fumar e no clipe o cigarro que eu fumo eram umas flores. Não é bagulho, eu juro (muitos mais risos). E eu ficava fumando lá essa coisa sem tabaco, pra mim foi muito difícil né? Você ter parado de fumar e ver todo mundo fumando pra c*****o e só fazer isso o dia inteiro e eu assim batendo dente e fumando flor (mais risos)

Vinícius: Teve a parada dos casais também.

Jan: É, os casais (atores) não se conheciam e elas (as produtoras) juntaram lá a galera, os dois caras, as duas meninas e o rapaz e a menina. Foram se enturmando e o negócio ficou quente lá, foi bacana, que bom que rolou a sintonia né, imagina? (risos)

Jan: Ele (o clipe) não tem uma trama assim, são mais situações que envolvem vício, tesão, que também é uma forma de vício e você pode se viciar nas coisas e ta tudo ali, a decadência disso. É muito louco né? Porque você sente vontade das coisas, de pessoas e sente saudades de coisas também. Cigarro é uma coisa muito sinistra, até hoje cara…

Explore: Qual a expectativa de vocês com esse lançamento e para o ano da banda em 2017?

Renan: A gente ta querendo marcar o fim desse ciclo aí do Homem Bom. Acho difícil a gente trabalhar com mais alguma música do disco e a ideia é disco novo esse ano. A gente tem muita coisa para mostrar, inclusive o que estávamos fazendo antes de acontecer isso tudo (do roubo) a gente ensaiava bastante.

Jan: Queremos agora firmar alguns projetos que a gente já vinha pensando. A gente vai de acordo com o que a gente imaginou e se adequando também. Acho que “Ex-Fumante” e “Levada” tem uma ponte legal aí para o que vamos fazer. Para esse ano é novidade, a gente lançou nosso CD em 2015 e agora é o momento para essa mudança. Até porque hoje a gente tem que estar sempre produzindo, não dá pra ficar parado, o caldo vai continuar rendendo, a gente vai continuar trabalhando enquanto isso, mas o show também fica mais interessante se tem variabilidade, cria mais momentos e o repertório fica melhor.

Explore: Que recado vocês deixam para os nossos leitores de Niterói e para quem vai assistir o clipe?

Vinícius: Gostaríamos primeiro de tudo agradecer a todo mundo né? Esperar que esse ano possa ser só coisa boa. Esse ano tem muita coisa nova, podem esperar muitas novidades esse ano e a gente espera que a galera goste disso tudo.

Jan: Sigam a gente no Instagram também, volte e meia a gente joga uma história lá e é uma maneira de estar dentro do que a gente está fazendo de forma bem íntima né? Acompanhar de perto, e a gente se compromete a mostrar isso tudo: como que estão ficando as coisas aqui, as produções, lá tem vários easter eggs. Inclusive vão ficar por dentro da gente doidão, bêbado… (risos) Vamos gravar vídeo da gente tocando música, essas coisas, só chegarem!

Facção Caipira e Mateus Pereira

História sobre um show engraçadíssimo da banda em Rio das Ostras.

Chegando ao fim da conversa, eu perguntei mais sobre como foi juntar tantos ritmos em uma só banda e surgiu um assunto mais ligado ao blues. Como é um ritmo que tem muito do improviso, a Facção Caipira já fez alguns shows com muito repertório de covers. Nesse momento da conversa uma história muito divertida foi contada:

Renan: A gente estava em Rio das Ostras, tocamos lá no “Jazz & Blues”. Mas teve um outro festival do lado que era o “Jazz no rancho”. Eles viram a gente tocando numa casa de show lá da cidade e quando vagou um espaço eles colocaram a gente. Só que o problema é que o Vinícius e o Daniel tinham que voltar para Niterói. Ficou eu, Jan e um amigo nosso que tava lá, a gente passou (o som) mais ou menos na hora assim e fomos.

Jan: O negócio era que eles queriam um show de duas horas e a gente tinha seis músicas… (muitos risos). E eu não sei, não sei o que houve… (risos) Mas rolaram duas horas…

Renan: Eu lembro que tinha uma coroinha na beirada do palco querendo dar um beijo no Jan… (mais risos)

Jan: Aí o cara pediu uma palheta para o Igor também, mas ele tava tocando com uma moeda de cinco centavos… (muitos risos) Aí ele deu, mas o cara tava querendo a palheta, pelo menos ele ganhou cinco centavos né… Ia acordar no dia seguinte com cinco centavos no bolso… (mais risos) Teve um cara com uma pandeirola também que chegou no palco: ‘posso tocar? Posso tocar?’, sei que o cara ficou o resto do show inteiro; achei que ele fosse tocar só uma música né? Subiu e ficou, uma hora e quarenta lá batendo “pandeira”. (risos)

Renan: Na primeira música já subiu um cara pra tocar gaita, o cara veio desesperado assim, mas tocou só uma música e desceu. Aí a gente tocou mais umas seis músicas lá…(Jan: cada uma cheia de partcipação) (risos)

Jan: Na verdade o nosso show deveria ter sido Facção Caipira e convidados, ou melhor, não-convidados né? (mais risos)

 

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