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Equipamentos urbanos ou retalhos na cidade?

*Por Diego Ramos

Leia ‘Equipamentos urbanos ou retalhos na cidade? – Parte 1 aqui.

A forma e os espaços são usados para ordenar as relações sociais, os edifícios revelam a sociedade como são de fato, não apenas no que aparentam ou pretendem ser. (SANTOS, 1988, p. 25). Cidades só fazem sentido através de padrões que, ao mesmo tempo, revelam o mundo e permitem percebe-lo. A cidade de Niterói, vista nestes dois momentos, de construção de seus dois grandes símbolos (MAC e Teatro Popular), pretendia expor ao mundo e a seus cidadãos que estava preocupada em expor através de sua aparência o que o seu índice de Desenvolvimento e sua qualidade de Vida repercutiam em tabelas e jornais.

O Teatro Popular Oscar Niemeyer, localizado atrás do terminal rodoviário e próximo à estação de barcas da cidade, não ambicionava apenas dialogar com a paisagem do Rio de Janeiro, ou se aproveitar de excelente encontro dos meios de transporte, mas sim, pretendia incluir as grandes massas populares na cultura, mesclar através da arte a população e reinserir a área central no roteiro de lazer dos habitantes da cidade. A ideia era criar um símbolo para reconstruir toda uma região que seguia a tendência mundial de revitalizar, as antes abandonadas, áreas centrais.

Historicamente, a medida que as cidades foram crescendo e se irradiando a partir do centro, que contava com toda uma infraestrutura favorável (água, luz, esgoto, transporte), para áreas mais distantes e ainda pouco habitadas e portanto, mais baratas, as habitações foram migrando e se afastando da área central, que ganha neste momento, características setorizadas de trabalho, produção e comércio. Tendo fusos determinados de utilização, e portanto, vem sendo abandonada ao passar dos tempos. A máxima de que os mais belos jardins se localizam na frente das casas, uma vez que o morador passa por ele todos os dias, enquanto nas residências onde os jardins estão na parte traseira da casa, em geral, estes são menos vistosos. Esta máxima vale para o urbanismo, onde as regiões com um menor percentual de habitantes, acaba recebendo menos incentivo dos governantes por serem menos cobrados.

Acontece que, quanto mais a cidade se expande, mais custoso fica para o governo manter, já que todo o percurso da infraestrutura básica tem que ser aumentado. Então, com o tempo, percebeu-se que deveríamos centralizar e densificar as cidades. Voltando a estimular a habitação nas áreas centrais e procurando não investir tanto na expansão urbana. Daí, obras para melhoria da mobilidade se tornam tão importantes, para diminuir as distância, estimular que as pessoas mantenham-se em suas habitações. A Construção do Túnel, projeto com mais de 40 anos tirado do papel recentemente, me parece uma tentativa de valorizar o perímetro da cidade e estimular sua densificação nas áreas já habitadas e não incentivar a busca por novas localidades. O próprio BRT na região oceânica a as conexões com os meios de transportes, barcas e catamarã atendem a este mesmo critério de otimizar os custos urbanos.

Se por um lado, o racionalismo modernista transformou o espaço em descontinuidade, fragmentação, desconforto e insegurança. Sendo hoje, na atual configuração (Ignorando a rede de transportes que se está construindo) Niterói uma verdadeira reunião de retalhos, como as importantes edificações da cidade, responsáveis por atrair e emprestar vitalidade ao entorno de suas ocupações, como o Plaza Shopping, o Theatro Municipal, o Teatro Popular Oscar Niemeyer, o MAC, a UFF, Campo de São Bento, a Reserva Cultural, o Itaipu Multicenter, as Praias; costuradas por alguns equipamentos de transporte como Barcas, Catamarã, Terminal e Rodoviária, a cidade acaba por apresentar-se fragmentada e setorizada em seus usos. Carecendo de áreas de grandes encontros. Esta reunião de edificações emblemáticas e equipamentos urbanos isolados na cidade, que cumpriam o papel de atrair, concentrar e dispersar pessoas, acabou também por destruir a noção de lugar, pertencimento. As áreas entorno, salvo certos casos específicos acabam sendo entendidos apenas como áreas de passagem, faltando estabelecer usos afetivos (O que começa a acontecer no entorno do Teatro Popular com a Patinação, pique-niques e encontros de bicicletas e shows; e com a Ocupação da Cantareira pelos jovens da cidade, munindo a Reserva Cultural de um público que não está ali, a princípio para utiliza-la, mas acaba estabelecendo uma relação visual afetiva com a mesma, contextualizando-a no local). Mas, de modo geral, a inexistência de atividades e usos que unam e costurem estes retalhos (edificações importantes da cidade) acaba-se por realçar um certo vazio. Neste momento, evidencia-se a importância da rua, surgindo como elemento fundamental para entendimento da vida urbana. Não apenas por ligar e levar os cidadãos de um lugar a outro, mas para oferecer-lhes atividades, experiências, enfim, vivências urbanas que marquem seu percurso e estabeleçam uma relação afetiva, despertando o senso de pertencimento e portanto potencializando a vontade de cuidar e preservar.

O lote e o espaço e logradouros públicos são os elementos considerados mais simples a base da organização do espaço. As diversas combinações entre esses elementos configuram a chamada estrutura urbana. A estrutura da cidade também é marcada pelos centros e pelas edificações. O centro é a área mais dinâmica da cidade, uma vez que, em geral, a história da formação da cidade está expressa nas suas edificações, relações e transportes, é evidente as olhos. Conjuntos de lugares e dos edifícios que os ocupam dão uma conformação às cidades e definem seus ritmos. Através deles se produzem e se mantém memórias. As edificações devem atender bem aos fins a que se destinam, devem ter uma percepção clara de sua finalidade para que o público o ocupe sem receios, caso seja da vontade do governo uma construção para o povo. É preciso, ainda em projeto, se definir a que público aquele projeto se destina, para que o mesmo sinta-se convidado a absorver e transformar aquele ambiente em um lugar (Reunindo construção e afetos vivenciados ali).

Há equipamentos públicos voltados para vizinhanças e bairros, visando pequenos grupos e intervenções (Praças, centros comerciais e galerias e até pequenos teatros e cinemas, escolas). Que devem, portanto, ser salpicados com a maior regularidade possível pelo território urbano, fazendo com que os habitantes daquela localidade tenha uma vivencie o bairro e não apenas residam ali. Recentemente, alguns investimentos neste sentido, vem sendo feitos na Região Oceânica de Niterói, exatamente para que seus habitantes não precisem se deslocar para usufruir dos equipamentos urbanos. Outros equipamentos públicos alcançam uma visibilidade municipal, estadual, nacional ou mesmo internacional e são únicos e servem ao conjunto da cidade e seus cidadãos, devendo receber um acesso e visibilidade compatível com o público que se destina. A localização destes, não está vinculada diretamente à habitação e sim ao poder centralizador e dispersor e a política de marketing que se pretende ao implantá-lo ali.

Portanto, os equipamentos urbanos são importantes ferramentas arquitetônicas e urbanas para que a política cumpra seus objetivos de atratividade, concentração, dispersão ou disponibilidade de serviços aos cidadãos. Existem equipamentos de várias abrangências, alguns servem a rua, ao bairro, a região, a cidade, ao estado e até ao País e devem assim, receber o devido tratamento estético e estrutural compatível com sua vocação. No entanto, todos sem exceção devem ser contextualizados e inseridos na localidade, dialogando com seu entorno. É preciso interligar os equipamentos, colocar a disposição da população os meios que conectem e auxiliem estes espaços a atender e aprimorar a vida na cidade. Niterói, em seu processo de reurbanização, tem enxergado a necessidade de ligar e entregar aos niteroienses e visitantes as ferramentas necessárias para descobrirem e experimentarem a cidade em seus vários atrativos. Usa do grande apego de seus ícones arquitetônicos para atrair, mas ambiciona levar os cidadãos a descobrirem através das conexões as belezas que alimentam a vida da cidade em suas mais íntimas ruas. Pretende atrair não apenas turistas para os pontos referenciais da cidade, mas através da vida cotidiana e dos espaços mais intimistas do niteroiense conquistar ainda mais admiradores.

“O poder de uma cidade está na descoberta das vivências que a compõem, assim como a existência da arquitetura se deve ocupação do homem no ambiente pelo ser humano. A costura dos retalhos é que o transforma em um só elemento, o mesmo vale a cidade!”

Estamos no caminho certo? Deixe sua opinião sobre as transformações de nossa cidade.

Referência: SANTOS, Carlos Nelson F. dos. A cidade como um jogo de cartas. Niterói: Universidade Federal Fluminense. EDUFF; São Paulo: Projeto Editores, 1988. p. 11 – 72.


*Diego Marques dos Santos Ramos, Arquiteto, Urbanista e Paisagista formado pela FAU – UFRJ, mestre em urbanismo pelo PROURB – UFRJ e doutorando também de urbanismo do PPGAU – UFF.

Nascido e criado em Niterói, original do amor de Paulo Ramos e Rose Marques, direto da barriga da mamãe para o hospital São Lucas, 28 anos atrás, tendo crescido em Santa Rosa e posteriormente Itaipu, morando ainda um ano em Santiago do Chile e na pequena cidade de Buin, justamente no ano do 5º maior terremoto da História do Planeta, como estudante intercambista de arquitetura, urbanismo e cinema na Universidad de Chile.

Escorpiano, noivo, ator e diretor profissional e professor teatral. Fundador da Cia JUKAH de Teatro, original do La Salle Abel em 2007 e berço de oportunidades artísticas a interessados em vivenciar as Artes Cênicas.

Author: Explore Niterói

Explore Niterói é um guia turístico diferente. Feito por quem ama e vive na cidade de Niterói, explora todos os cantinhos da Cidade Sorriso com amor. Vem com a gente! #exploreniteroi contato@exploreniteroi.com.br

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