Convidados, Crônicas

Eu já morei em Nictheroy…

Texto escrito por Flávio Farias, 39 anos, músico e apaixonado por Niterói.

Sim, já morei nessa cidade. Hoje, infelizmente, os tempos são outros. Quando morei nessa cidade, tomávamos sorvete no Sem Nome. Íamos ao Cinema Icaraí, ao Central, e ao Galeria. Entrávamos no Plaza Shopping pela Mesbla. Ouvíamos falar do trampolim em Icaraí mas só dava pra pular na Pedra da Baleia.

Não existia “baixo” nenhum; era tudo no “Saco”, da Rua Wadih Cury até a Rua das Pedras. Só quem entrava na Kool Ibiza era o primo mais velho, mas anos depois veio a Madame Kaos e o Barthô com suas matinês pra salvar a garotada, sem contar a Scaffo. Long Night era até a meia-noite; Festa do Sinal tinha adesivo; Festa do Blackout apagava-se as luzes; e a Festa da Cebola… bem, essa a gente esquece. E para muitos, talvez a melhor festa de todas era no Le Village (ou seria Le Vilonge?!): o Levi Fantasy. Forró do Bikini era no Le Virgilio. Pra curtir pagode tinha Don Roalle, Le Mustashe. Lamberóbica era em Piratininga, no Coquetel e em Camboinhas, no Mazza. Funk era no Marquinho do Rock ou no Café Nojento, quero dizer, Rodeio. Na Cantareira era maconha e reggae no asfalto; a maconha tem até hoje, mas digamos que as coisas lá andam mais coloridas. Bin Laden era ao lado do DCE da UFF. Existiam shows e chopadas, do Canto do Rio ao Compinter Club. Furávamos festas de 15 anos do Country ao Naval.

A maioria estudava em colégio católico; tinha a turma que estudava em escolas mais liberais, como o Gay-Lussac e o Centro Educacional. Mas quem repetisse de ano ou fosse expulso acabava no GPI, Acadêmico, Argumento… e os que não tinham mais jeito terminavam no SES.

Quem morava no Fonseca era do Bronx. Pendotiba era longe, mas tínhamos o República da Banana, a Double Six e a Calypso; R.O. só para irmos a praia, mas tínhamos a Blow Up. A metade da galera jovem nem sabia onde era o Bumba até uma tragédia acontecer por lá.

Marcávamos encontro na Praia de Icaraí pelo MIRC, ou pela linha cruzada no telefone.

Vímos o Mc’Donalds de Icaraí virar febre quando abriu e pagávamos apenas R$4,50 por uma promoção do Big Mac, mas também vímos o do Multicenter fechar.

Não se fugia de Lei Seca na Estrada da Cachoeira. E voltávamos do Rio, de madrugada, pelas Barcas.

A passagem de ônibus custava 55 centavos. Dávamos “balão” no cobrador do 47 só para vê-lo xingando a gente de longe, enquanto o ônibus seguia seu destino. Comíamos sanduíche no Mirante da Boa Viagem, até construírem um museu em formato de disco voador por lá.

foto: Flávio Farias
foto: Flávio Farias

De quatro em quatro anos ouvíamos alguém dizer que faria um túnel ligando Charitas ao Cafubá.

Assistíamos peças no Teatro da UFF e shows no bar do DCE.

Era possível encontrar casas em Icaraí, e nenhum prédio na Região Oceânica.

Víamos a Viradouro desfilar todo ano no Desfile das Campeãs.

Assistíamos os jogos da Copa do Mundo em telão na Praia de Icaraí. Se rolasse uma briga, era tudo resolvido no “mano a mano”, no máximo umas garrafas voando aqui e ali. Ninguém atirava em ninguém, muito menos parávamos na delegacia por qualquer coisinha tola. Não havia bullying, mas sim, zoação; e ninguém se tornava complexado por isso.

Namorávamos no Parque da Cidade; assistíamos a “corrida de submarinos” ao lado do Clube Naval, e chegávamos em casa achando que tudo aquilo havia sido o máximo.

Tínhamos a Sandiz, que depois virou Bay Market. E não tínhamos essas barcas com motores possantes mas sim, barcas que navegavam tranquilas, sem pressa de chegar à Praça XV.

Tínhamos a Sendas no Ingá, para comprarmos qualquer coisa na madrugada.

Não íamos para o Centro e sim para “lá em baixo em Niterói” (quem vai para a R.O sobe; Centro, desce).

Não existia UPP no Rio, e não havia tantos bandidos por nossa cidade.

Assistíamos jogos no Caio Martins, nem que fosse para rirmos do Botafogo.

Fazíamos tantas coisas numa época em que não tínhamos celulares e tablets. Para acharmos alguém, mandávamos mensagens para o pager da pessoa.

Enfim… tenho saudades de morar nessa cidade.

Author: Explore Niterói

Explore Niterói é um guia turístico diferente. Feito por quem ama e vive na cidade de Niterói, explora todos os cantinhos da Cidade Sorriso com amor. Vem com a gente! #exploreniteroi contato@exploreniteroi.com.br

3 Comments on “Eu já morei em Nictheroy…

  1. Que texto maravilhoso do meu grande amigo e irmão Flávio Farias,me fez relembrar da Niterói que jamais quero esquecer,a cada parágrafo lido ,mais meus olhos enchiam de lágrimas,lágrimas boas,de saudades de um tempo que não volta mais e no qual eu faria qualquer coisa pra passar tudo de novo.

  2. É Flavio, tens toda razão. Tenho o prazer de morar aqui do outro lado da poça. Infelizmente a cidade se perdeu nas características que mais nos encantava. Hoje vivo na expectativa de sair e voltar pra casa. E chegar em casa e ver meus pais bem. Niterói um dia foi cidade sorriso e cidade modelo. Saudades eternas.

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