Convidados, Entretenimento

Juntos pelos Caipiras

Solidariedade à moda Caipira

Uma cidade, uma banda, um assalto, uma mobilização e muito amor envolvido.

Por Mateus Pereira*

Camarim. por José Pantoja
Camarim. por José Pantoja

Na segunda-feira (26) fui ao Teatro Municipal João Caetano aqui em Niterói para presenciar mais que um evento, vi a união e o carinho transformados em muita música boa. Após a banda niteroiense Facção Caipira ter perdido seus equipamentos num assalto no final de agosto, três bandas da cena musical de nossa cidade organizaram, com muito amor, o show “Juntos Pelos Caipiras” para arrecadar fundos para os músicos.

Segundo a própria descrição no Facebook, “O evento é uma ação colaborativa entre a prefeitura, o Teatro Municipal e as bandas da cidade a fim de dar suporte aos músicos niteroienses e propagar a cultura local.” Gragoatá, Bow Bow Cogumelo e Kapitu foram os três pilares da noite regada de solidariedade.

É maravilhoso saber que nos dias de hoje ainda há comoção e compaixão quando outras pessoas necessitam de cuidado, pois foi isso o que impulsionou cada artista e espectador do evento. Por sinal, convenhamos que para uma segunda-feira à noite, de um dia frio e no fim do mês, ter preenchido toda a plateia e galeria do Teatro Municipal de Niterói é a maior prova de que todos que estavam ali sabiam das músicas de qualidade e a belíssima causa do evento.

Então vamos ao show!

Todos juntos / foto: Mateus Pereira
Todos juntos / foto: Mateus Pereira

A primeira banda que subiu ao palco foi a Gragoatá, composta por Rebeca Sauwen (voz), Renato Côrtes (guitarra) e Fanner Horta (guitarra/ukulelê). A banda surgiu em 2014 apresentando vídeos com músicas autorais; MPB é seu gênero central mas em alguns momentos transita por outros diferentes ritmos. Em momentos de parceria com a banda Barcamundi, por exemplo, batidas do folk, pop e rock são comuns de serem identificadas. Neste evento, as bandas tocaram juntas com a participação de Gil Navarro (bateria), Pedro Chabudé (baixo) e Leon Navarro (bandolim, escaleta e guitarra).

A Gragoatá, assim como todas as bandas, teve cerca de 30 minutos para se apresentar e pela junção com a Barcamundi, na maioria das canções, inseriu outros instrumentos (como a escaleta e o bandolim) que talvez possam ter levado a banda a não tocar músicas como “Passarinhos” e “Clara”, duas das mais conhecidas do repertório autoral da Gragoatá. Mas nada que tenha tirado a beleza de um grande show!

No fim do evento, conseguimos conversar com a vocalista Rebeca Sauwen e o guitarrista Renato Côrtes, ambos estavam sublimes com a energia positiva de todos os artistas e do público do Municipal. “Eu amei isso, podia ter todo mês”, disse Rebeca. Apesar de saber que foi por conta de uma tragédia que as bandas se juntaram, ela percebeu que a retomada e a superação podem ser maiores que o assalto sofrido pela Facção Caipira.

A Gragoatá, inclusive, está lançando seu primeiro CD e um integrante da Facção Caipira, o baterista Renan Carriço, foi um dos produtores deste álbum. Para saber mais sobre o CD e como pode ajudar a Gragoatá neste projeto clique aqui.

Gragoatá / Divulgação Facção Caipira
Gragoatá / Divulgação Facção Caipira

A segunda banda a se apresentar foi a Bow Bow Cogumelo, composta por João Gabriel (Gabirú – guitarra/baixo), Fernando Caneca (Canequinha – guitarra/voz) e Felipe Ferreira (bateria/voz). A banda existe desde dezembro de 2010, faz parte da cena independente carioca de Rock ‘n Roll e em agosto de 2014 lançou seu primeiro álbum, intitulado “mergulho”. Confira aqui!

Dentro do show, ocorreram duas participações mais que especiais de Marcos Sabino e Cacala Carvalho. Ambos deram um tom mais suave às músicas da Bow Bow, a banda demonstrou a força que possui no Rock, como origem, mas também utilizou do Rap e os grooves do Reggae, tudo na medida certa. Era claro a alegria e empolgação dos artistas no palco do TMJC, o baterista Felipe Ferreira logo após a apresentação da banda fez a transição para a Kapitu e era possível ver nos olhos dele como havia amor e solidariedade à Facção Caipira.

Logo após, foi a vez da Kapitu que nascida em janeiro de 2008, tem como membros Yuri Corbal (voz/guitarra), Eduardo Matos (guitarra), Irlan Guimarães (baixo) e Rafael Marcolino (bateria). A banda possui o Rock ‘n Roll como principal expoente, não deixa faltar distorções nas guitarras, na maioria das músicas. Não podemos deixar de falar da voz de Yuri que carrega força e rouquidão para deixar tudo mais visceral. Dá pra entender o porquê de no site da banda mostrarem que “letra e som demarcam liberdade, atitude e pressa por viver”.

A Kapitu lançou, em 2015, Vermelho, seu segundo CD autoral e no “Juntos Pelos Caipiras” trouxe cerca de cinco das suas principais músicas, dentre elas “Canções Vazias”, que recentemente ganhou um Clipe Oficial. Confira aqui!

Kapitu / foto: Mateus Pereira
Kapitu / foto: Mateus Pereira

Antes de finalizar sua apresentação, a banda Kapitu convocou ao palco os grandes homenageados da noite para fechar junto com eles. Primeiro Daniel Leon (gaita) e Jan Santoro (violão/guitarra) entraram no palco para tocar uma canção da Kapitu, mas logo depois Vinícius Câmara (baixo) e Renan Carriço (bateria) se juntaram aos músicos e tocaram o maior sucesso dos caipiras: Blues Brasileiro Foragido Americano! A plateia foi ao delírio, muitos celulares surgiram para registrar o momento e também não faltaram palmas para acompanhar o ritmo da canção.

Se você não conhece a Facção Caipira, os caras começaram em 2009 e desde o início buscaram um trabalho original, com influências diversas e muita qualidade. Segundo o site da banda “A Facção Caipira se destaca justamente pelo seu jeito despretensioso de fazer pop, indo ao passado para ilustrar o futuro, brincando de fazer o blues parecer menos complexo e o country mais acessível. É o rock britânico, com influência do Alabama e perfomance à brasileira.” Não é à toa que músicas como “Blues pra lá de Rock’n’Roll” e “Blues Brasileiro Foragido Americano” tenham marcado tanto a identidade da banda.

No fim do show consegui conversar com dois integrantes da Facção Caipira, o baixista Vinícius Câmara e o vocalista Jan Santoro. Para Vinícius estava até difícil descrever a felicidade que sentia pela junção das bandas no evento, declarou que há complicações em reunir as bandas do cenário niteroiense não pela falta de organização ou de desejo dos artistas, mas que, muita das vezes, faltam espaços viáveis, com estrutura de qualidade para abarcar as bandas. Diante disso, não podemos deixar de parabenizar o Teatro Municipal João Caetano, todas as pessoas que puderam fazer este show ocorrer, assim como, todos os técnicos que lá trabalham; pois sabemos como não deve ter sido algo simples.

Jan Santoro, assim como Vinícius, só conseguia agradecer todo o carinho que todos estavam tendo pelo trabalho dos músicos. Segundo Jan, Yuri Corbal (Kapitu) e Felipe Ferreira (Bow Bow Cogumelo) foram as primeiras pessoas que tiveram a iniciativa de produzir o evento solidário à Facção Caipira e a partir daí Arthur Maia, os outros artistas e os diversos agentes do Teatro Municipal entraram nesta ação de muito amor pela banda. “Eu nem acredito sabe? Não imagino a dimensão dessas coisas, quando eu imagino fico emocionado; porque é realmente especial tudo que foi feito.”

Quando perguntei ao Jan sobre mais eventos que possam acontecer a junção das bandas que tocaram municipal, o vocalista disse: “Isso acontece de uma forma muito natural, porque a gente é amigo e é muito honesto o som que fazemos um com os outros, vamos nas casas, tomamos cerveja, um café, tocamos violão e daí surgem ideias e a gente produz essas ideias”. No fim do papo o músico deixou uma mensagem belíssima para todos nós: “Independente da área que você trabalha, é importante você saber olhar pra sua volta com carinho, solidariedade, compaixão e ajudar mesmo. Porque é uma das coisas que torna a gente humano. Saber onde você está inserido, acho que isso ultrapassa a música e entra como uma questão de postura de vida e é isso que a gente tira daqui hoje”.

Uma das últimas expressões que Jan Santoro utilizou foi: “bons frutos” e é com esse sentimento que todo o público conseguiu sair na noite da última segunda-feira do Teatro Municipal. Na certeza que é possível construir bons frutos, ou seja, muita coisa boa quando se tem amor e solidariedade no coração.

foto: Vinícius Giffoni
foto: Vinícius Giffoni

Ps: Deixo aqui um agradecimento especial às amigas Mariana Esberard e Camila Swan que partilharam também suas observações dos shows para que esse texto pudesse ser construído.


*Mateus Pereira é analista de social media e um grande fã da cena musical independente de Niterói.

Author: Explore Niterói

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