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Na companhia de Jorge

Fé e arte popular andam lado a lado em Niterói

Você sabia que Niterói tem um Museu exclusivo para Arte Popular de 1.400m²? Até pouco tempo eu não sabia e se você também não, conheça nas próximas linhas um pouco do Museu de Arte Popular Janete Costa e sua nova exposição, que estreou essa semana, Na companhia de Jorge.

Foto: Divulgação / Museu Janete Costa

O espaço é um dos casarões que compõem a nossa cidade. Construído em 1862, está bem em frente ao Solar do Jambeiro. Pelas formas das portas e janelas de ambas edificações, estudos arquitetônicos da UFF, concluíram que os dois espaços tenham sido feitos e habitados pela mesma família, do construtor português Bento Joaquim Alves Pereira, durante muitos anos.

Fachada do Solar do Jambeiro

Após muito tempo fechado e deixado de lado, passou por reformas e revitalizações. Em 2012 o museu ficou como conhecemos hoje e foi efetivamente aberto em 2013. A proposta do espaço é direta, objetiva e muito rica. Apresentam-se artistas que vem para retratar seu cotidiano, muitas das vezes simples. O museu mostra que é possível com materiais precários e, sem muita instrução, construir uma obra de arte. Digo isso, pois o Museu Janete Costa conta com uma exposição permanente belíssima que nos faz viajar pela cultura brasileira, de norte a sul do país apresentando as dores e alegrias de nosso povo. Mas isso é assunto pra falarmos mais em outro dia.

São Jorge, por Jorge Mendes

Conversei com Zely Lage, coordenadora de pesquisa da exposição e, além de observar a paixão dela por tudo aquilo que ali estávamos observando, pude tirar algumas reflexões acerca do que falamos: a arte é para todos, pode ser feita por todos e nos leva a sentir algo, sensações boas ou ruins, mas nos tira de uma mera zona contemplativa; sobretudo a arte popular.

No Museu Janete Costa, metade do primeiro e todo o segundo andar possuem, não só obras do acervo pessoal de Jorge Mendes (curador e colecionador), como também peças que convidam os visitantes a interagir com os objetos que ali estão expostos. Pode parecer estranho, mas não comecem a visita pelo andar de baixo, já que este possui as peças de maior interação com o público. Elas terão mais sentidos para quem já passou por todo andar de cima.

Efetivamente a primeira parte da exposição acontece logo que se sobe a escada. É a visão de Jorge Mendes, quando criança, observando uma procissão feita para São Jorge. Em sua vida, houve uma doença na infância que o aproximou do Santo Guerreiro. Sua mãe, muito devota, pediu que o santo ajudasse seu filho e o artista nos fala, no quadro de apresentação, que, na infância, via São Jorge na Lua, montado em seu cavalo e batalhando contra o dragão. A partir de então a admiração só foi aumentando. Nesta exposição com mais de 90 peças de artistas brasileiros, de diversos estilos, idades e locais, nos é mostrada a figura de um dos personagens mais icônicos de nossa cultura.

Procissão de São Jorge, por Mateus Pereira

Vejo, por onde ando, a força desse santo. Em camisetas, bonés, cordões, em para-choques de carros, na música e no futebol, na intercessão do religioso e do profano, na intimidade cotidiana das idas e vindas por este Brasil.

(Jorge Mendes)

A segunda parte da exposição, e ponto alto, são o que Jorge e Zely chamam de “Casas de São Jorge”, são ao todo quatro espaços que representam “santuários” em que cultuam-se a imagem do guerreiro. Candomblé, Umbanda, Catolicismo e o bar (a parte profana). Segundo Zely, essas casas “são as diversas linhas que São Jorge foi colocado. No Candomblé ele vai à Bahia e é Oxóssi, na Umbanda é Ogum, mas não deixa de ser um guerreiro. Daí cada casa tem um texto lindo, que nossos monitores fizeram, explicando como se deu a figura de São Jorge ali naquele contexto.”

A riqueza de detalhes, de cores e inclusive de sons é presente na exposição. Digo de sons também, pois nestas casas existem dois banquinhos em que o público pode sentar, colocar um fone de ouvido e imergir naquele universo específico, de forma leve e tranquila. Grande parte das obras apresentadas sobreviveu na casa de Jorge Mendes, aqui em Niterói mesmo, em Santa Rosa. Mas, se estamos falando de arte popular, não podemos restringir essas peças dentro de uma única casa. Dessa forma, hoje, toda a população da cidade tem a possibilidade de interagir com o acervo que nos conta não só sobre São Jorge, mas sobre as diversos aspectos que constroem a cultura brasileira.

O respeito é o melhor caminho

O que ficou guardado em mim depois de estar Na companhia de Jorge é a palavra união. A exposição fala da união das crenças, dos povos, dos sentimentos e ideais em torno de uma figura que é positiva e só procura trazer o bem àqueles que a admiram. A junção disso tudo é central para Jorge Mendes: “Tento separá-las por religiões, por regiões, dar-lhes um sentido particular para melhor entendê-las, sabendo mesmo que, no final, o importante é a fé que move, a beleza que cura, a simplicidade que humaniza e aproxima. Não há muito a explicar. É sentir e vivenciar.”

Sigamos então este caminho, convido cada leitor a sentir e vivenciar, com muito respeito e carinho, a companhia de Jorge.

Por Mateus Pereira

Serviço:

Na Companhia de Jorge
Museu Janete Costa de Arte Popular
Endereço: Rua Presidente Domiciano, 178-182, Boa Viagem
Curadoria: Jorge Mendes e Jorge Guedes
Visitação: de 27 de abril a 27 de agosto de 2017
Horário: De terça a domingo, das 10h às 18h
Entrada franca todos os dias
Telefone: (21) 2705 3929
Diretora: Daniela Magalhães

Author: Mateus Pereira

Prestes a finalizar o curso de Estudos de Mídia na UFF, "Eclético" deveria ser o nome do meio de Mateus. É ator por amor à arte, escuta música em qualquer momento e sabe as regras até de futebol de botão. Se pudesse, iria a todos os eventos pela cidade, afinal, pra que sair de Niterói se já tem tanta coisa boa?

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