Agenda Cultural, Entretenimento

Niterói, um fim de semana e dois teatros.

Teatro está no top 5 de coisas que eu mais amo, não à toa participei de um grupo teatral de Niterói durante anos. Já pensei em investir mais na área, tanto que tirei meu registro profissional como ator. Mas nas linhas que seguem não vim falar sobre a minha paixão por artes cênicas e sim sobre dois espetáculos belíssimos que estão em cartaz na cidade neste mês de Maio.

Memórias de um Pequeno Grande Príncipe

No Teatro Popular Oscar Niemeyer está em cartaz até 28 de maio a peça Memórias de um Pequeno Grande Príncipe. Eu e Red Werneck fomos assistir à estreia e tivemos uma experiência maravilhosa. Como já deve ter percebido pelo nome, o espetáculo é baseado no livro “O Pequeno Príncipe” de Antoine de Saint-Exupéry, um clássico infanto-juvenil, mas que trata de assuntos para todas as idades, tendo sua primeira edição publicada em 1943, quando o autor ainda era vivo.

Pessoas amam e odeiam a história, confesso que sempre ouvi um lado e outro, mas nunca consegui sair de cima do muro, talvez com essa peça eu tenha passado pro lado que ama. O espetáculo é apresentado pela ArteCorpo Teatro e Cia daqui de Niterói mesmo, que existe desde 2001. A direção é de Rachel Palmeirim, a pessoa com quem eu tive a honra de conversar após assistir a peça no último sábado(6).

Cida e Rachel Palmeirim, mãe e filha, manipulando o boneco do Pequeno Príncipe / Foto: Divulgação ArteCorpo

 

Um livro cheio de metáforas, a cada hora que você lê parece que ele foi escrito de novo.

Rachel Palmeirim: “Pequeno Príncipe é um sonho antigo, de uns 10 anos atrás, quando a gente montou a primeira versão, que era uma contação de histórias. Entramos em cartaz com ela, mas era bem mais simples e no ano retrasado decidimos retomar a história, só que de outra forma. Por ser um livro cheio de metáforas, a cada hora que você lê parece que ele foi escrito de novo. Dessa vez descobrimos coisas novas, inclusive sobre Saint-Exupéry que nos fez evidenciar coisas que não tínhamos evidenciado antes.”

Um aspecto maravilhoso, surpreendente e único da montagem da ArteCorpo é que o personagem principal é um boneco. Sim, o Pequeno Príncipe não é um ator, muito menos uma criança, mas sim um boneco que cria vida pelas mãos dos 4 atores em cena e pela voz da Rachel. “Foi nossa maior dificuldade, porque é uma novidade para a companhia, é o nosso primeiro espetáculo com um boneco, mas foi um aprendizado que a gente não quer mais largar, pois nos apaixonamos pela linguagem.”

Outro ponto que especialmente me tocou muito no espetáculo foi a iluminação, assinada por Ricardo Lyra Jr., que tem ligação direta com o boneco do Pequeno Príncipe. Rachel então me disse que “o fato de se ter uma linguagem de bonecos, fez com que o espetáculo fosse recortado, pois o boneco tem 75cm, nós somos enormes perto dele. Então para que nós pudéssemos sumir e o boneco aparecer teve que existir um recorte que, na prática, quem fez foi a luz.”

O aviador / Foto: Divulgação ArteCorpo

O momento em que o Pequeno Príncipe viaja para outros planetas, também é um dos pontos mais belos que observei, por conta novamente dos jogos de luz e a atriz me contou que “claro que tem a mão dele (Ricardo) também, mas muito dessa construção foi improviso nosso. Improvisamos como iríamos fazer a viagem, já que são muitos personagens, somos pouco no palco e tínhamos que dialogar com a linguagem da peça. Daí como apagar o deserto, que é o ambiente principal da peça, e viajar no universo? Assim, surgiram as brincadeiras com as lanternas, improvisamos com caixas de papelão e outras coisas até chegarmos nisso que vocês viram.”

Meu conselho, se você não gosta da história, deixe seu preconceito de lado com tudo que já ouviu sobre o Pequeno Príncipe e vá ao teatro. Se você já conhece e ama o livro e as diversas adaptações, tenho certeza que irá se surpreender como a ArteCorpo nos conta essa estória atemporal.

De volta à Fantástica Fábrica de Chocolate

Fui no Teatro Abel no domingo (7) e pude assistir o espetáculo assinado pela Cia Jukah de Teatro que tem direção e adaptação de Diego Ramos, que também faz o Willy Wonka na peça levando o público a muitas gargalhadas. De volta à Fantástica Fábrica de Chocolate é um pouco diferente da história consagrada nos cinemas do mundo inteiro. Ela apresenta Willy Wonka decidindo, novamente, enviar cinco novos “Wonka Tickets” dentro de seus chocolates. E, desta vez, 20 anos depois, esses cincos bilhetes dourados são encontrados pelos filhos de seus antigos visitantes.

Se você gosta dos filmes já lançados, com certeza irá aproveitar muito a peça, já que no teatro a companhia conseguiu realmente construir uma Fábrica Fantástica que nos leva a viajar junto com Willy Wonka e as crianças. No fim do espetáculo, conversei com Filipe Vigo, coreógrafo da peça e que interpreta Augustus Gloop (o menino alemão gordinho de 20 anos atrás).

Willy Wonka e os Umpa Lumpas / Foto: Olhar Fotográfico

Um ponto que me chamou a atenção ao longo do espetáculo foi a presença marcante dos “Umpa-Lumpas”, os pigmeus que vem da “Loompalândia” – que segundo este Willy Wonka “fica ali perto de Caxias” – e são os únicos trabalhadores da Fábrica de Chocolate. Perguntei a Filipe como havia sido a construção dos atores com esses personagens.

Por que é uma coisa nova, diferente, atrativa e que nunca foi vista nos palcos de Niterói.

Filipe Vigo: “A gente ficou pensando que os Umpa-Lumpas são seres alegres e pra cima e tínhamos que demonstrar isso no palco. Calhou que nesse período, que estávamos pensando, uma parte da companhia estava em São Paulo e passeando por lá vimos umas roupas infláveis que achamos muito legais e muito divertidas. Falamos ‘é isso que a gente precisa!’ Por que é uma coisa nova, diferente, atrativa e que nunca foi vista nos palcos de Niterói. Começamos a pensar em como usá-las e de quantas precisaríamos o que no final deixou tudo mais divertido em cena.”

Filipe me contou que os figurinos dos Umpa-Lumpas também ajudaram a pensar na roupa do Sr. Wonka, que na verdade é a marca maior do espetáculo, assim como nos filmes. Não podia deixar de falar sobre todo o tom de suspense e comédia que Diego Ramos deu à peça.  Os “diálogos” entre os pigmeus e Willy Wonka são maravilhosos e Filipe Vigo também me contou que:

Filipe Vigo: “Como eles não tem uma linguagem “falada”, o Diego também vai levando o público dizendo “ah, então isso quer dizer… e tal…” e às vezes não é; é uma ironia, então ele dá a jogada irônica. Então isso foi uma construção muito grande dos Umpa-Lumpas com o Diego, foi muito interessante e acabou ficando muito rico.”

No fim da conversa, Filipe me falou uma coisa que me tocou muito e que eu levei pra minha vida, até porque compartilho do pensamento dele. Me contou que “A gente trabalha com a arte porque amamos isso. A gente brinca muito que, por mais que sejamos uma companhia profissional, todos somos ‘amadores’. Porque pra nós o ‘amador’ vem do ‘fazer com amor’ então é isso que tentamos fazer aqui na Jukah.

De Volta à Fantástica Fábrica de Chocolates / Foto: Olhar Fotográfico

Estou escrevendo aqui nestas linhas, pois amo isso, amo teatro e a arte como um todo. Se você, que está lendo, de alguma forma compartilha desse pensamento, não deixe de assistir a esses dois espetáculos que estarão em cartaz até o fim do mês de maio. Com certeza verá ali crianças, jovens e adultos que amam muito o que fazem.

SERVIÇO:

Memórias de um Pequeno Grande Príncipe
ArteCorpo Teatro e Cia.
06 a 28 de maio de 2017 (exceto 13 e 21/05), às 16h
Teatro Popular Oscar Niemeyer
Avenida Jorn. Rogério Coelho Neto, s/n, Centro
Ingressos: R$30,00 / R$15,00 (meia entrada ou lista amiga)
Lista amiga: artecorpo@artecorpoteatro.com.br

De Volta à Fantástica Fábrica de Chocolates
Cia JUKAH de Teatro
06 a 28 de maio de 2017, às 16h
Teatro Abel
Rua Mário Alves, 2, Icaraí
Ingressos: R$40,00 / R$20,00 (meia entrada ou apresentando flyer promocional)

Author: Mateus Pereira

Prestes a finalizar o curso de Estudos de Mídia na UFF, "Eclético" deveria ser o nome do meio de Mateus. É ator por amor à arte, escuta música em qualquer momento e sabe as regras até de futebol de botão. Se pudesse, iria a todos os eventos pela cidade, afinal, pra que sair de Niterói se já tem tanta coisa boa?

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *