Convidados, Crônicas

Percepções sobre Niterói: Trocas e Olhares Urbanos

Um apanhado de olhares sobre a Cidade Sorriso

*Por Diego Ramos

A intenção desta coluna enquanto convidado do Explore Niterói é expor uma prévia análise de 7 jovens atores, moradores da cidade de Niterói e suas mais diversas regiões, a respeito da arquitetura e o urbanismo da cidade.

Após o apanhado das opiniões e percepções de: Mayhara Sheylla (Jurujuba), Rhayssa Guedes (Rio do Ouro), Filipe Vigo (Itaipu), Itaiara Lago (Icaraí), Elba Cecília (Ingá) e Letícia Duartte e Barbara Brizola (Centro) a cidade de Niterói será reconstituída conceitualmente.

Foto: Anderson dos Santos

Democrática e fragmentada. Violenta e tranquila. Urbana e ruralizada. Receptiva e segregacionista. Cultural e praiana. Envelhecida e jovem, Moderna e pouco preservada, alta e baixa; e muitos outros antagonismos adjetivaram a cidade tão querida por todos. Estas contradições iniciais complementam o entendimento complexo acerca de uma cidade e suas pluralidades: social, usos e momentos. Experimentamos a cidade em diversas situações: festivas, rotineira, diurnas e noturnas, em férias e enquanto dormitório, nova e antiga. Esta análise comprova que muitos fatores externos influenciam na nossa percepção sobre o espaço.

O papel do arquiteto e do urbanista permeia e estabelece exatamente a composição – ambiente construído e usuário, conciliar, instigar e propor vivências. Se o espaço não é habitado ou habitável, se não foi pensado para o ser humano, não é arquitetura… aqui, o ser humano, suas percepções e sensações tem enorme relevância na imagem da cidade e suas funcionalidades, não sendo, portanto, uma análise científica e sim a explanação de sensações individuais causadas ao se pensar em Niterói.

O debate foi aberto e complementar, posteriormente categorizado por mim. Tendo assim, pontos confrontivos e complementares nas explanações de cada um dos atores.

Foto: Marina Zyrianoff

TURNOS: Rhayssa, estudante de artes Cênicas da Estácio em Niterói, moradora do Rio do Ouro, analisou o centro da cidade nos três períodos do dia (manhã/ tarde/ noite). “Frequento bastante o centro em diversas frentes, como estudante, como consumidora e enquanto espaço de lazer, em uma área específica (Cantareira e Shoppings). Pela manhã, esta região aparece como um espaço de produção, onde as pessoas parecem focadas em ir trabalhar, em geral bem vestidas, apressadas e pouco comunicáveis. A tarde, vira uma área de consumo com pessoas cheias de sacolas, com roupas mais frescas e coloridas e em um ritmo menos acelerado, parecendo se atentar mais a detalhes e locais e podemos ver diversas atividades, interesses e público (crianças, adultos, idosos e jovens). A noite, o centro se torna bem menos receptivo e aparentemente mais perigoso, deserto, pouco iluminado e sem grande diversidade de atividades. A quantidade de pessoas diminui enormemente e vê-se muitos mendigos, as barracas de rua, pontos de ônibus e bares aparecem como pontos de vida urbana. O centro da cidade muda muito de acordo com os turnos. E esta observação vale para muitas áreas da cidade.”

Foto: Marina Zyrianoff

FRAGMENTOS E PONTOS VITAIS: Itaiara, estudante de Cenografia da UNIRIO, moradora de Santa Rosa e Letícia Duartte, prestando vestibular e moradora do Centro, observam que a cidade aparece bem fragmentada com grande diversidade urbana. Onde existem áreas que funcionam como catalizadoras, ou seja, concentram e dispersam grandes públicos e movimentam seus entornos. “A cidade é bem diversificada, com áreas mais empobrecidas e regiões de grande concentração de renda. E esta diversidade é vista claramente pela arquitetura das construções, e fica também evidente no urbanismo. Os próprios equipamentos (Shoppings e estações de barcas) parecem destinados a públicos específicos e não propriamente democráticos”; diz Itaiara.

Biblioteca Parque de Niterói / Foto: Duda Massa

Áreas como Icaraí, possuem grande concentração de renda e uma aparência suntuosa, tendo equipamentos culturais como teatros, cinema, shoppings pequenos, galerias e acesso a muitos serviços fundamentais, enorme quantidade de academias, a praia que proporciona grande movimento social, acesso a transportes variados para todos cantos da cidade e uma das poucas áreas verdes que é o Campo de São Bento. São Francisco por outro lado, aparece bastante residencial e com um uso bem definido no comércio que seriam os restaurantes, sem tantas opções culturais. O mesmo se espalha para Camboinhas, que é observado como enorme condomínio praticamente privado e Itaipu um bairro sobretudo residencial dormitório com pouquíssimas áreas de entretenimento cultural.

Existe uma má distribuição de equipamentos, serviços e infraestrutura da cidade. Barreto, Fonseca, Largo da Batalha, vistos como áreas de passagem. Letícia relata que “A cidade aparece como uma colcha de retalhos com características próprias e relacionadas pelas ligações viárias. ” E destaca que os bares próximos a sua casa, praticamente não fecham e que observa o movimento das ruas nestas áreas e o fluxo de carros para definir os horários de chegar e sair de casa. Acreditando que o movimento determina uma maior ou menor segurança.

DORMITÓRIO: Filipe, bacharel em direito e morador da Avenida Central em Itaipu, destaca que a região possui grande carência de infraestrutura urbana básica apesar de possuir muitas habitações de grande renda. Parece uma região rural, se assim se pode chamar, com ruas de terra onde é possível misturar cavalos e carros no transito. Uma região bem arborizada e com um clima muito mais agradável do que nas áreas centrais. No entanto destaca que a cidade é usada para morar e dormir, mas que seus moradores em geral trabalham na cidade vizinha e capital do Estado, o Rio de Janeiro. Que possui um trânsito intenso e poucas áreas coletivas e públicas equipadas para lazer. O estudante enxerga a cidade com relações sociais bem definidas, com áreas pontuais para práticas de certas atividades e com pouca diversidade de usos. Extremamente quente, pouco arborizada. Vê apesar destas observações a cidade muito bonita e agradável para se morar.

foto: Red Werneck

FAIXAS ETÁRIAS: Mayhara, estudante de artes da UERJ e moradora de Jurujuba, questiona o conceito de beleza destacado por todos e atrelado a cidade com o seguinte questionamento: “A Beleza é relativa e depende muito da funcionalidade e preservação do ambiente. A Beleza está na ocupação, no uso e nas relações humanas estabelecidas entre a edificação, os espaços e as pessoas”. Para Mayhara, Jurujuba está mudando muito e observa crescimento de construções não planejadas o que afeta o uso daquela região e também o microclima da área. Acredita que a cidade é bem receptiva sim, porém com pouquíssimas áreas de sombra e regiões muito abastecidas de transportes e equipamentos e outras sem grandes investimentos. Observa que as faixas etárias que ocupam a cidade são bem definidas. As crianças e os idosos que de fato vivenciam e desfrutam da cidade e suas praças e serviços, uma vez que os adultos estão trabalhando fora em grande parte do dia. Acredita que a cidade está pluralizando suas atividades culturais com cinemas e teatros e isso traz grandes benefícios.

HORÁRIOS E PATRIMÔNIO: Elba, oriunda de Corumbá no Mato Grosso e estudante de Dança na UFRJ, residindo há quase 5 anos na cidade, no Bairro do Ingá, observa que muitas casas do bairro estão ficando abandonadas, apenas dos últimos anos para cá, e destaca que o bairro é bastante envelhecido e com poucas áreas públicas. Relata que é preciso ter maior cuidado com os calçamentos das ruas, arborização e pensar de fato a cidade para seu público e cidadãos. Destaca ainda que em Niterói praticamente não há opções de lazer, restaurantes ou atividades após as 23h. Demorou um pouco a se encontrar na cidade e estabelecer relações efetivas. Mas, que acredita ser bem mais receptiva que a capital. Sendo mais aconchegante para quem vem de cidades menores. Na Cantareira, diz que observa como um local da cidade onde todos podem ser e agir como realmente são, sem medos, preconceitos ou questões menores. Destacando a democracia deste lugar e ressaltando o fato de a Reserva Cultural (Projeto do Oscar Niemeyer), o restaurante Docas e os restaurantes em volta da Praça, além da UFF e as barracas ali presentes, fazerem com que a região esteja recebendo cada vez mais um público diverso e receptivo. Para Elba é importante destacar que certos acontecimentos urbanos lhe informam a hora e o que deve fazer. Por exemplo: “Quando passa o caminhão de lixo, na areia da praia de Icaraí sei que devo ir para casa… Quando toca o sino da igreja sei o horário do dia que estamos e a periodicidade da saída das barcas me explicita o tempo que passei em determinado local”.

QUALIDADE: Barbara, vinda de Passo Fundo do Rio Grande do Sul para estudar na cidade, destaca que o Índice de Desenvolvimento Humano alto da cidade e a qualidade de vida foram grandes atrativos. Além da Universidade Federal Fluminense e a proximidade com a cidade do Rio de Janeiro, que a fizeram optar pela cidade. Sem contar, que deveria causar boas intenções em seu então namorado, com a cidade, para que o mesmo se identificasse e o agradasse. E isso ocorreu pela escala da cidade. Enxerga grande vocação de receber pessoas de diversos cantos do Brasil e destaca que morar quase na frente do terminal tem grandes vantagens não apenas de transporte, mas de diversidade de públicos.

Sendo assim, observamos que em uma primeira análise a cidade apesar de fragmentada e com fusos e faixas etárias bem definidas e atividades concentradas possui enorme vocação em receber e agradar seus habitantes que estabelecem aqui um enorme vínculo afetivo. O terminal Rodoviário foi muito citado como área verdadeiramente de todos e um local que mesmo de passagem tem a virtude de misturar as pessoas oriundas de diversas partes e com distintas características.

Estátua ao Almirante Ary Parreiras / Foto: Red Werneck

A arquitetura de Oscar Niemeyer na cidade também teve grande destaca por proporcionar e entregar a cidade explanadas grandes e dispostas a receber diversos públicos em todo o Caminho Niemeyer. Já nas praias se observou que também há grande diversidade e mistura, sendo destacadas como áreas bem democráticas e afetivas da cidade, com raras exceções como a de Camboinhas e Itacoatiara que nem todos se sentem convidados a frequentar.

Portanto, nesta primeira troca de olhares e reflexões gerais sobre Niterói, constatamos que o papel da arquitetura e do urbanismo, suas funções e diretrizes não são claros para os cidadãos, ainda muito atrelado a estética puramente. A cidade apresenta-se com uma belíssima arquitetura, tendo inclusive construções como símbolos da cidade, e sendo estes equipamentos e espaços frutos da integração social na cidade. É nos equipamentos urbanos que a mistura ocorre e não tanto nos bairros que ainda tem sua delimitação e ocupação bem setorizadas. Não existe domínio sobre as regiões que compõe a cidade, ou seja, algumas áreas realmente são pouco citadas e vivenciadas pelos niteroienses por estarem fora de seu fluxo e deslocamento urbano. A intenção não é gerar uma análise histórica neste primeiro momento, ou mesmo apontar resoluções. Este momento, é de olhar, observar e relacionar quais sensações e percepções a cidade lhe transmitem.

MAC / Foto: Red Werneck

E ai, quais suas percepções e opiniões sobre a cidade?


*Diego Marques dos Santos Ramos, Arquiteto, Urbanista e Paisagista formado pela FAU – UFRJ, mestre em urbanismo pelo PROURB – UFRJ e doutorando também de urbanismo do PPGAU – UFF.

Nascido e criado em Niterói, original do amor de Paulo Ramos e Rose Marques, direto da barriga da mamãe para o hospital São Lucas, 28 anos atrás, tendo crescido em Santa Rosa e posteriormente Itaipu, morando ainda um ano em Santiago do Chile e na pequena cidade de Buin, justamente no ano do 5º maior terremoto da História do Planeta, como estudante intercambista de arquitetura, urbanismo e cinema na Universidad de Chile.

Escorpiano, noivo, ator e diretor profissional e professor teatral. Fundador da Cia JUKAH de Teatro, original do La Salle Abel em 2007 e berço de oportunidades artísticas a interessados em vivenciar as Artes Cênicas.

Author: Explore Niterói

Explore Niterói é um guia turístico diferente. Feito por quem ama e vive na cidade de Niterói, explora todos os cantinhos da Cidade Sorriso com amor. Vem com a gente! #exploreniteroi contato@exploreniteroi.com.br

6 Comments on “Percepções sobre Niterói: Trocas e Olhares Urbanos

  1. Excelente trabalho!
    Achei muito interessante a forma como o autor e entrevistados transpareceram suas vivências e conhecimentos. Comparar Niterói à uma colcha de retalhos é de uma sensibilidade fenomenal, certamente todo morador/frequentador de Niterói compartilha desse sentimento.
    Gostaria de lançar um desafio ao autor:
    Na próxima matéria mostrar ao leitores diversas percepções de apenas um retalho dessa enorme colcha que é Niterói. Por exemplo, o campo de são Bento, certamente os frequentadores possuem diversas percepções de como é estar ali e mostrar como a arquitetura e paisagismo do lugar influenciam essas percepções e sentimentos seria formidável!

  2. Amei o texto, também vejo Niterói como várias cidades em uma só. Sou de São Paulo e sempre convivi com espigões, e fico feliz em ter encontrado em Icarai um pedaço de minha terra , vários prédios altos com um parque no meio ( campo de São Bento ) me sinto extremamente em casa , pessoas preocupadas com suas próprias vidas e seus trabalhos andam pelas ruas apressadas sem perceberem quem está ao lado

  3. Ótimo texto! Interessante observar as semelhanças e diferenças na percepção de cada um dos participantes, e refletir sobre meu próprio olhar sobre a cidade onde vivo desde criança. Parabéns!

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